O meu mundo ficou menor, ou terá ficado diferente e "menor" seja o nome que consigo dar a essa diferenciação? Mesmo assim, menor que os outros, acho que o meu mundo me faz pensar demais e crescer demais as coisas.
Quando olho pra escola onde estudei do pré à quarta, eu cresço ela tanto que ainda me vejo pequeno dentro do seu teatro que hoje, bem sei, é menor, menor do que sempre imaginei. Ou ainda, quando viajo de carro tendo que abaixar a cabeça, curvar as costas ou encolher as pernas, sentar de ladinho pra caber no banco de traz, não deixo de lembrar de cinco crianças (eu uma delas) num colchão enorme no porta-malas do Caravan cinza 79/80 que meu pai cuidava como se da família fizesse parte. Ah, meu pai... a lembrança vem e me vai. E minha mãe: ela não entende minha mão não mais entrar nos copos de vidro da casa dela (aqueles de requeijão e extrato de tomate). Não adianta, ela ainda pede minha ajuda pra arrumar a cozinha, e nem digo que o fundo dos copos permacerá molhado, ela diz: "Faz o que eu mando e guarda o que cê sabe". Nessas horas eu sinto minha idade dividida por quatro e o amor de minha mãe por mim só multiplicando, ultrapassando as barreiras dos números reais, big bang de amor cuja expressão numérica não se revela às minhas operações fundamentais. Enfim, no fim das contas o fundo dos copos seca: ajudo no que posso e o evaporar faz o resto.
Não se trata de subtração, mas de uma conta estranha: tudo isso colabora pro meu mundo tornar-se diferenciado, não-igual ao que era nem aos que outros são. Pra não me sentir ainda mais menor, não fico de-mal de mais ninguém. Antes ficava de-mal demais. Ficar de-mal é "do mal", prefiro rir das vezes que disse ou ouvi belém-belém nunca mais fico de bem, e no outro dia...
Mesmo menor que os outros, penso eu que penso muito. Acho que penso muito o mundo que é meu mesmo assim: menor e muito.
