segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Passeando

O meu mundo ficou menor, ou terá ficado diferente e "menor" seja o nome que consigo dar a essa diferenciação? Mesmo assim, menor que os outros, acho que o meu mundo me faz pensar demais e crescer demais as coisas.
Quando olho pra escola onde estudei do pré à quarta, eu cresço ela tanto que ainda me vejo pequeno dentro do seu teatro que hoje, bem sei, é menor, menor do que sempre imaginei. Ou ainda, quando viajo de carro tendo que abaixar a cabeça, curvar as costas ou encolher as pernas, sentar de ladinho pra caber no banco de traz, não deixo de lembrar de cinco crianças (eu uma delas) num colchão enorme no porta-malas do Caravan cinza 79/80 que meu pai cuidava como se da família fizesse parte. Ah, meu pai... a lembrança vem e me vai. E minha mãe: ela não entende minha mão não mais entrar nos copos de vidro da casa dela (aqueles de requeijão e extrato de tomate). Não adianta, ela ainda pede minha ajuda pra arrumar a cozinha, e nem digo que o fundo dos copos permacerá molhado, ela diz: "Faz o que eu mando e guarda o que cê sabe". Nessas horas eu sinto minha idade dividida por quatro e o amor de minha mãe por mim só multiplicando, ultrapassando as barreiras dos números reais, big bang de amor cuja expressão numérica não se revela às minhas operações fundamentais. Enfim, no fim das contas o fundo dos copos seca: ajudo no que posso e o evaporar faz o resto.
Não se trata de subtração, mas de uma conta estranha: tudo isso colabora pro meu mundo tornar-se diferenciado, não-igual ao que era nem aos que outros são. Pra não me sentir ainda mais menor, não fico de-mal de mais ninguém. Antes ficava de-mal demais. Ficar de-mal é "do mal", prefiro rir das vezes que disse ou ouvi belém-belém nunca mais fico de bem, e no outro dia...
Mesmo menor que os outros, penso eu que penso muito. Acho que penso muito o mundo que é meu mesmo assim: menor e muito.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

O Relatório Valmer

-"Numa mesa bem ao centro, com um calendário à direita, o telefone celular desligado e o corretor líquido à base d'água no lixo, contando as páginas em branco que tinha, através de um bilhete rasgado, prometido a si mesma que preencheria, ela arrumava por sobre os livros antigos sua mais nova coleção literária de autores ainda pouco criticados pelos especialistas da área. Molhava o dedo na glicerina, tocava folha-a-folha, virando-as e imprimindo sua digital no lugar em que deveria constar cada número de página."
-Isso é tudo até agora, Robert.
-Ainda falta... próximo passo: sinais de agressão. Peça a ele que se atente a isso, e que faça outro relatório.
Após ler em voz alta o relatório, Ylla recebera ordens expressas de Robert para que avisasse Valmer sobre a necessidade de uma investigação mais a fundo do desaparecimento de Marla.
Ylla, não sabendo como dirigir-se ao chefe para relatar sobre a obviedade que havia na cena do crime onde estavam (e que faltava no relatório do encarregado pela investigação, o detetive Valmer), amenizou o tom e o volume de voz, dizendo quase sussurrando:
-Capitão, aproxime-se da estante. Capitão!
Robert interrompe o chamado de Ylla. Depois de sentir o cheiro do jantar, derrete toda a cena do crime. Grunindo como pai-babão, bagunça o cabelo de Yla, que reclama:
- Ah não, pai! Vamos continuar, a Marla pode estar em sérios apuros (levantando o braço direito ao céu e levando ao peito) Não deixemos que nossas necessidades nos tirem de nosso destino!
Robert, acompanhando tudo com um grande sorriso e sempre caminhando em direção à saída do escritório de sua casa, desce as escadas fazendo caretas de pai para a filha como convite a uma perseguição que culminaria numa mesa farta de arroz, feijão, carne, tomate e alface.
Yla suspira nada contente, embora aparente estado de "eu já sabia que ele não resistiria ao cheiro da comida". A garota passara a semana inteira planejando o que brincar com seu pai aquela que julgava ser sua obra-prima das brincadeiras e jogos. Deliciava-se com O Relatório Valmer que havia criado e terminado naquele mesmo dia. Pensou não poder parar agora, mesmo estando com fome.
Yla, então, gira em torno de si com os olhos fechados e, em instantes, vê-se terminando o giro e abrindo os olhos diante do exato espaço vazio de um livro que havia na estante. "Que livro seria?" Antes mesmo de completar seu pensamento, um ruído vindo de baixo da mesa lhe arrepiara a espinha. Cautelosamente ela se aproxima da mesa, põe a luva de silicone que trazia ao bolso para não contaminar a cena do crime, vai dobrando os joelhos e abaixando a cabeça e o olhar, certa de que ali estaria o "risco de sua vida" e, numa mortal tentativa de agarrar o responsável pelo barulho, Ylla joga-se no chão.
-An-Gu-Gu! - A cena do crime derrete novamente. Yla deixa a cabeça cair até encostar o queixo no peito. Seu irmãozinho Valmer, babando e sorrindo, estende as mãozinhas em direção à irmã para que o pegue no colo.
Seu pai, Robert, e sua mãe, Marla, sobem as escadas. Marla com um pano de prato, vestindo um avental, a enxugar as mãos; Robert, após ter lido mais um capítulo de contabilidade financeira, recoloca o livro no lugar que lhe era reservado. Marla coloca o pano de prato no ombro e agaixa-se para pegar Valmer, que continuava com os braços estendidos. Robert pega O Relatório Valmer, dobra-o ao meio duas vezes, coloca-o no bolso e, agarrando Yla pelas pernas, leva-a por sobre o ombro direito sob protesto: chutando o ar e, com seus punhos cerrados, acertando as costas do pai (que simula dor e gemidos).
Marla sai na frente e Robert, ao sair, apaga a luz e fecha a porta do escritório que, escuro, parece chorar a ausência de Ylla e a presença do livro errado no lugar certto.

sábado, 4 de agosto de 2007

nosso texto

Meus pensamentos se encontraram com teu corpo noite passada. O que passava, além do tempo, era um momento tão lindo quanto a água que, ao tocar o céu, se divide em vários pedacinhos pra evaporar antes de ser lago de novo. Pedacinhos de chão no céu, show de estrelas, uma lua cheia, uma noite verde à beira de nossos anseios, quase que inteiros num só lado.
Escolhemos o caminho antes de saber pra onde ir e simplesmente fomos. Fomos surpreendidos por aquilo que por anos negamos e, da forma mais simples e mais "ais", amamos. Sobre a grama, sob o céu, ao som de uma cachoeira de papel, desenhamos nossos rostos e desejos na areia de nosso tempo: presente.
Antes que um mar de desilusões invada nossa praia, brincaremos de escorrega na cachoeira de papel, brilharemos nos olhos de quem lembrar do nosso "olhos nos olhos", tudo depois de um leve toc-toc no firmamento.
Tornamo-nos milhares de pedacinhos, cada um se encontrando noite-e-dia, sussurrando, num ato de simplicidade, o que há muito fora silenciado; gritando em uníssono nosso carinho em reciprocidade. Sentindo a simplicidade da vida na brisa (que nossas mães, com a testa enrugada, teimam em chamar de sereno) vamos tateando nossos beijos, respirando um ao outro, um no outro, sentindo o gosto do amor que experimentamos no agora.
E ao fim de mais um dia juntos, executamos mais juntos ainda uma sinfonia de sorrisos consonantes, descobrindo pouco a pouco em que lugar tocar para encontrar e fazer soar os harmônicos de nossa semi-breve existência.
...
à ju,
meu amor

de noite ver te

ver de noite
ver te, noite verde
ver te, de noite
ver
ter
verter d'olhos nos meus nada verdes
nadar d'olhos nos olhos
como seus lábios
como seus lábios dizem
noite-e-dia-a-dia
como se fosse a primeira vez