quarta-feira, 15 de agosto de 2007

O Relatório Valmer

-"Numa mesa bem ao centro, com um calendário à direita, o telefone celular desligado e o corretor líquido à base d'água no lixo, contando as páginas em branco que tinha, através de um bilhete rasgado, prometido a si mesma que preencheria, ela arrumava por sobre os livros antigos sua mais nova coleção literária de autores ainda pouco criticados pelos especialistas da área. Molhava o dedo na glicerina, tocava folha-a-folha, virando-as e imprimindo sua digital no lugar em que deveria constar cada número de página."
-Isso é tudo até agora, Robert.
-Ainda falta... próximo passo: sinais de agressão. Peça a ele que se atente a isso, e que faça outro relatório.
Após ler em voz alta o relatório, Ylla recebera ordens expressas de Robert para que avisasse Valmer sobre a necessidade de uma investigação mais a fundo do desaparecimento de Marla.
Ylla, não sabendo como dirigir-se ao chefe para relatar sobre a obviedade que havia na cena do crime onde estavam (e que faltava no relatório do encarregado pela investigação, o detetive Valmer), amenizou o tom e o volume de voz, dizendo quase sussurrando:
-Capitão, aproxime-se da estante. Capitão!
Robert interrompe o chamado de Ylla. Depois de sentir o cheiro do jantar, derrete toda a cena do crime. Grunindo como pai-babão, bagunça o cabelo de Yla, que reclama:
- Ah não, pai! Vamos continuar, a Marla pode estar em sérios apuros (levantando o braço direito ao céu e levando ao peito) Não deixemos que nossas necessidades nos tirem de nosso destino!
Robert, acompanhando tudo com um grande sorriso e sempre caminhando em direção à saída do escritório de sua casa, desce as escadas fazendo caretas de pai para a filha como convite a uma perseguição que culminaria numa mesa farta de arroz, feijão, carne, tomate e alface.
Yla suspira nada contente, embora aparente estado de "eu já sabia que ele não resistiria ao cheiro da comida". A garota passara a semana inteira planejando o que brincar com seu pai aquela que julgava ser sua obra-prima das brincadeiras e jogos. Deliciava-se com O Relatório Valmer que havia criado e terminado naquele mesmo dia. Pensou não poder parar agora, mesmo estando com fome.
Yla, então, gira em torno de si com os olhos fechados e, em instantes, vê-se terminando o giro e abrindo os olhos diante do exato espaço vazio de um livro que havia na estante. "Que livro seria?" Antes mesmo de completar seu pensamento, um ruído vindo de baixo da mesa lhe arrepiara a espinha. Cautelosamente ela se aproxima da mesa, põe a luva de silicone que trazia ao bolso para não contaminar a cena do crime, vai dobrando os joelhos e abaixando a cabeça e o olhar, certa de que ali estaria o "risco de sua vida" e, numa mortal tentativa de agarrar o responsável pelo barulho, Ylla joga-se no chão.
-An-Gu-Gu! - A cena do crime derrete novamente. Yla deixa a cabeça cair até encostar o queixo no peito. Seu irmãozinho Valmer, babando e sorrindo, estende as mãozinhas em direção à irmã para que o pegue no colo.
Seu pai, Robert, e sua mãe, Marla, sobem as escadas. Marla com um pano de prato, vestindo um avental, a enxugar as mãos; Robert, após ter lido mais um capítulo de contabilidade financeira, recoloca o livro no lugar que lhe era reservado. Marla coloca o pano de prato no ombro e agaixa-se para pegar Valmer, que continuava com os braços estendidos. Robert pega O Relatório Valmer, dobra-o ao meio duas vezes, coloca-o no bolso e, agarrando Yla pelas pernas, leva-a por sobre o ombro direito sob protesto: chutando o ar e, com seus punhos cerrados, acertando as costas do pai (que simula dor e gemidos).
Marla sai na frente e Robert, ao sair, apaga a luz e fecha a porta do escritório que, escuro, parece chorar a ausência de Ylla e a presença do livro errado no lugar certto.

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