sexta-feira, 27 de junho de 2008

Ponto de vista

Os carros bateram pela última vez. De longe vi os destroços que voavam pra todas as direções, estilhaços de aço e de vidro que cortavam o ar e me trespassavam. Com a calma de uma mãe que carrega uma criança enferma no colo, olhei um pedaço de espelho que acabara de tocar meus pés. Olhei no espelho e não me vi, eis que perdia meu reflexo. Percebi o céu como nunca antes havia feito, e uma dor no peito aumentava, dançando no mesmo ritmo que o aumento da mancha vermelha que pintava o mundo em mim, abaixo do meu queixo, no meu externo. Sentia o peso do mundo deitado em meio a pessoas que, sem dispor de conhecimento técnico para socorro, apenas espectavam. Coração batendo em decrescendo, unhas que não tardariam a nunca mais serem pintadas, brincos que se jogaram do meu corpo buscando uma última chance de reluzir ao meio-dia de uma semana qualquer, que vem, que viria... Reflexos de um mundo objetado, cacos de amor em estado gasoso cada vez mais diluídos. Ruídos e luz piscante, despedida sem relação com as tradições que escolhera eu ignorar. Foi-se o tempo que me tinha, agora o verbo “ter” nenhuma tradução permite, restou apenas o “apenas”, e minha teimosia em enxergar o mundo sem cores quase desapareceu. Talvez, se mais tempo me fosse permitido... (Choque – 1, 2, 3, 4 – Choque) Batimentos cardíacos, pulso regular, pupilas dilatadas. Mais carros colidirão. Meu tato em recuperação sente as gotas da chuva como pequenas descargas elétricas da natureza que nunca cursaram medicina, e guardam junto a outros mistérios, os segredos da vida, incluindo os meus. Calo meus pensamentos por breve instante e abro os olhos bem devagar, ainda labiríntica. Duvidei, mas estava lá. No alto, acima dos que me carregavam à ambulância, o arco-íris. A água fria que caía, a força dos gestos dos bombeiros retirando meu filho dos destroços do carro, até os gritos de “Ajudem, por favor”, tudo agora estava pintado. A meu ver, tudo tinha uma cor. Olhos e cores se entendendo. O mundo me refletia, o céu se mostrara meu melhor espelho. Eis que recupero meu reflexo.

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