segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

MOVIMENTO

"Ao contrário do que me disseste

Consegui mergulhar

Sou contrário do que simplesmente parece

Nunca fui de enganar


Você tinha razão, eu não pude agüentar"



P.S.: GRAVANDO CD (DEMO) SOLO - COMPOSIÇÕES E AFINS

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Bem depois

Depois de muito tempo
Bem depois
Depois do vento da tarde na praça
Depois que me abraça
E o vento laça
bem
depois

Mal por pouco tempo
Algo em torno de meses
Algo em torno de mim
assim
Bem pouco
Fiquei mal
Por pouco não...

bem depois
Algo em torno de dias
(e que dias!)
Fiquei bem, pronto
bem pronto pra fazer bem

Depois que gritei
respirei
e desenlacei o vento preso em mim
Virei furacão e destruí
depois ri
Bem depois
mesmo com uma solidão de segundos antes da última brisa me desejar
"boa noite"
bem depois de eu ressonar

Recuperei o leve toque
que cada manhã teima em nos lembrar
suavizei minha raiva
bem depois
e fiquei

pronto, falei.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Pintura íntima

Minhas músicas cantam o que não tenho coragem
crio miragem, pois, depois que me apresento
invento cara e sorrio menos pra que me desconheçam
e me arrebento quando menos espero

Choro quando "apêrto", já que ela, bem perto...

Os pulsos seguram firme o que treme
meu corpo tem os pulsos nas mãos
cada coisa no seu planejado lugar, e eu teimando...

Bem perto e remando contra, o vento nos esfria
e eu jorrando pólvora no amor...

Bombeiro bárbaro em condições de chama sem controle,
desejado retardo de explosão solucionante:

explosão de medo e lágrimas de areia forram os caminhos por onde passarei

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Choro cílios

CHORO CÍLIOS ENQUANTO POSSO PISCAR
CHORO-OS ENQUANTO HÁ COMO E PORQUÊ
CHORO ATÉ SOLUÇAR
E ESQUECER A RAZÃO DE HAVER CHORO

ABRO A JANELA E PERCEBO O CORO
QUE PROFETIZA O FUTURO PELO CHORO
FECHO A JANELA, ABRO OS OLHOS, CALO O CHORO
ESQUEÇO O CÓRUS, CRIAM-SE CALOS NAS CÓRNEAS
E TODOS FAZEM O MESMO
E OS CÍLIOS A CAIR

ENTÃO RIO, RIO ATÉ NÃO MAIS PODER
RIO DE CÍLIOS CAÍDOS, DO VERTER PÁLPEBRAS
EIS QUE ME LEMBRO DO PORQUÊ E DESEJO O CONTRÁRIO DISSO
DESEJO NUNCA MAIS OUVIR TAL SINFONIA

EMBORA QUEIRA MEUS CÍLIOS, TODOS, SEM RAZÃO DE SER,
DE VOLTA, DE ONDE
NUNCA
DEVERIAM TER SAÍDO

Polir ritmo

A lembrança é estreita, me aperto
Expremido amarelo, me expresso
Caldo desgostoso, peito aberto
Comida de rato de esgoto certo

Sardinha no piano, martelo
Idéias em ondas, andante
Respiração sinédoque, braqueante
Guelreado e impróprio à ATP

Ânsia daquilo no vacúolo
Volta o cão arrependido pelo mar
Expremido pelo medo, apertado pelo receio
De não ser desenho animado: “-Continue a nadar”

Esqueço, esqueça. Diástole e Sístole
Juntos na pausa pintando descanso
Som a cada vez que tem que soar
Pausa a cada vez que tem que respirar

Caixa de teclas. Tecmus, musisax
Saída pela tangente, tanta gente quânta
Quanta gente tantã: metralhadora de vendas
Som a cada vez que LEMBRANÇARDINHÃNSIADAQUILODOCÃO

Somos pausa cada vez que devemos soar
Somos som quando não conseguimos mais respirar
Réquiem para contemplação
Restos de um mundo sem Sol

Iscas de anzol ao fim de tudo
E nenhum Da cappo nos rearranjará.

Ponto de vista

Os carros bateram pela última vez. De longe vi os destroços que voavam pra todas as direções, estilhaços de aço e de vidro que cortavam o ar e me trespassavam. Com a calma de uma mãe que carrega uma criança enferma no colo, olhei um pedaço de espelho que acabara de tocar meus pés. Olhei no espelho e não me vi, eis que perdia meu reflexo. Percebi o céu como nunca antes havia feito, e uma dor no peito aumentava, dançando no mesmo ritmo que o aumento da mancha vermelha que pintava o mundo em mim, abaixo do meu queixo, no meu externo. Sentia o peso do mundo deitado em meio a pessoas que, sem dispor de conhecimento técnico para socorro, apenas espectavam. Coração batendo em decrescendo, unhas que não tardariam a nunca mais serem pintadas, brincos que se jogaram do meu corpo buscando uma última chance de reluzir ao meio-dia de uma semana qualquer, que vem, que viria... Reflexos de um mundo objetado, cacos de amor em estado gasoso cada vez mais diluídos. Ruídos e luz piscante, despedida sem relação com as tradições que escolhera eu ignorar. Foi-se o tempo que me tinha, agora o verbo “ter” nenhuma tradução permite, restou apenas o “apenas”, e minha teimosia em enxergar o mundo sem cores quase desapareceu. Talvez, se mais tempo me fosse permitido... (Choque – 1, 2, 3, 4 – Choque) Batimentos cardíacos, pulso regular, pupilas dilatadas. Mais carros colidirão. Meu tato em recuperação sente as gotas da chuva como pequenas descargas elétricas da natureza que nunca cursaram medicina, e guardam junto a outros mistérios, os segredos da vida, incluindo os meus. Calo meus pensamentos por breve instante e abro os olhos bem devagar, ainda labiríntica. Duvidei, mas estava lá. No alto, acima dos que me carregavam à ambulância, o arco-íris. A água fria que caía, a força dos gestos dos bombeiros retirando meu filho dos destroços do carro, até os gritos de “Ajudem, por favor”, tudo agora estava pintado. A meu ver, tudo tinha uma cor. Olhos e cores se entendendo. O mundo me refletia, o céu se mostrara meu melhor espelho. Eis que recupero meu reflexo.

Neblina

Dia de neblina
Como se a noite não tivesse fim
Passado
Estou feito em sua carne viva

Chuvas de notas que vestem seu corpo
E seduzem meus olhos, meus medos e anseios

Estou na corrente que trazes como enfeite
Assim como a veste que te compra a vista

Dia de chuva
de cinzas que enfeita a pele
que suja a corrente que usas
que suja a roupa que vestes

Dia de neblina como.
Se a noite não tivesse...
Fim passado.
Estou feito em sua carne.

Viva

Conto de fadas

Encontro de conto de fadas
Mãos atadas ante o destino
Olhar de menino e alma gigante

Cante, cantemos de longe e de perto
sopremos sininhos
Suspiro a favor
do vento horizonte
Sem que
na fronte
Haja o rubor

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

E tenho sido

Os dias têm sido um quarto pequeno e desorganizado
com carros passando a cada respiro
com gotas gastando a pedra e gastando-se
na perda de tempo comigo.


Os casos têm sido um quarto grande e vazio
com um lençol branco e limpo, sem uma mancha sequer
com os pés da cama flutuando de tanta falta,
estática parede ao pé do ouvido.


Os olhos têm sido um quarto por alugar
à espera ansiosa de uma nova companhia
à espera de histórias, aventuras, casos de polícia,
mas à espera e sempre à espera.


Enquanto dobro papéis nada acontece.
Enquanto peço permissão pra dobrar papéis
não acontece nada além do que se espera.
Ao se render à dobradura de papéis... Nada mais.


Surgem olhares amarelos em quartos que nunca deixarão de ser
[quartos
sugestões que jamais seriam sugestões segundo o olhar ingênuo de
[quem acredita
desilusões quanto ao ombro que, vira-e-mexe, volta a ser tapete
frases afirmativas com sujeitos auxiliares que se dizem em
[prontidão. Sempre.


Enquanto dobro papéis nada acontece.
Enquanto peço permissão pra dobrar papéis
não acontece nada além do que se espera
de quem se rende à dobradura de papéis e nada mais.


Meus olhos têm sido um quarto por alugar.

Eles têm sido o a-lugar.

Goiânia: 2007/12/13.

Vivemos numa época em que salvar a própria vida é lucro, e pensar em salvar a alheia é troco

De que adianta ser Michelângelo
se o relógio não anda
e o lugar não muda?

Os calos de violão, as lágrimas em pó
ou sete palmos ou sete estágios no subnível quando só, Beatriz
os cabelos grandes, respeito à Renascença
os cabelos curtos, máscara pra conviver com a auter-crença

De que adianta ser Leonardo, o pintor
se o cantor é que anda
e faz parar o reloginho das mulheres?

É um murro em vão no moinho
uma conversa com um botânico em Weimar
uma coroa de espinhos
e um boticário a pseudomatar mil e quinhentos anos depois

O ciúme de Goethe, o ciúme de Otelo
o ciúme de D. casmurro, O ciúme de Kurt Cobain

De que adianta pensar no que não tem
se não dá tempo de correr atrás?
se o relógio não adianta quando próximo a mim
mesmo sendo eu um comedor voraz?

Hannibal tinha razão?
Hannibal Lecter. Ele tinha razão?!

Isso é ridículo,
cobrar-se uma conta por existir é ridículo
Paranóia é coisa de viado.
Depressão é coisa de bichinha.

“Vira homem, rapaz.
Vai comer umas bucetas!”

“Sua vida não tem graça
Se não bebe não tem graça
Pra que seguir as regras?
Eu não. Eu sei que o sistema existe,
mas não o sigo.
Vamos tomar uma hoje?”

Sabe quem tinha razão?
O cara do “Clube da luta”
O cara do “Amnésia”
O cara do “Identidade”
As ninfas de “Cidade dos sonhos”
O David Lynch, o Mel Gibson
A pele de Cristo sendo arrancada
em casa elisabetana de áudio e vídeo

Sabe quem mais tinha razão?
A Nicole Kidman com o nariz novo
O Humberto Gessinger ao escrever “Dom Quixote”
O Dave Matthews ao cavar a minha cova
“Gravedigger”, “Ants marching”
“I’m b(u)orning in the eyes of The Maker”
Jim Morrison – The End
Pink Floyd – The Wall
“We don’t need an(y) education”

Eles estão corretos
São eles que merecem citação
Eles, eles são OS CARAS

Não à repetição, não à não-criação
(“Como nossos pais” é o caralho!)
Gritemos vivas de olhos abertos ao Homer
e não deixemos que nossos pais percam um episódio sequer d’Os Simpsons
nem da Família Dinossauros.

Os outros somos nós, Nicole
OS outros somos nós
Mas nem Jostein Gaarder
nem a adolescente no espelho nos farão ver
não importa quantas vezes entremos no barco

O coelho corre e Alice cai
e o coelho corre, muitos não cabem na porta
assistem sombras coloridas no século XXI

Os outros somos nós, Nicole
Os outros, cada vez mais,
Teimam em ser nós
cada vez mais e com menos sonhos
Nós: “Laranjas mecânicas”.

Goiânia: 2007/12/14