segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Matéria-prima

Faz um tempo
A Esperança faz um tempo como ninguém faz
A filha da Esperança chama Paz

Faz um tempo
Faça um tempo com pitadas de neve
Pra clarear o coração de quem te leva
Com objetivo de te abandonar
E a esperança queima

Branco neve, preto carvão
O quadro-negro é verde
E a água, transparente a olho nu
Às vezes verde, às vezes azul
Como o céu, espelho d’água

Fábula, bola no aquário
Pula-pula, carrossel
Gira a girafa com pescoço de escorrega
Pique-pega, caio com as mãos na areia

Matéria-prima da imaginação
Nuvem
Matéria-prima da imaginação
Papel
Matéria-prima da imaginação
Mãos
Matéria-prima da imaginação

Arte
Matéria prima da imaginação
Matemática
Matéria prima da imaginação
Música

Matéria prima da imaginação

Civilização
Obra prima-irmã do tempo

Goiânia: 2007/12/17.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Passeando

O meu mundo ficou menor, ou terá ficado diferente e "menor" seja o nome que consigo dar a essa diferenciação? Mesmo assim, menor que os outros, acho que o meu mundo me faz pensar demais e crescer demais as coisas.
Quando olho pra escola onde estudei do pré à quarta, eu cresço ela tanto que ainda me vejo pequeno dentro do seu teatro que hoje, bem sei, é menor, menor do que sempre imaginei. Ou ainda, quando viajo de carro tendo que abaixar a cabeça, curvar as costas ou encolher as pernas, sentar de ladinho pra caber no banco de traz, não deixo de lembrar de cinco crianças (eu uma delas) num colchão enorme no porta-malas do Caravan cinza 79/80 que meu pai cuidava como se da família fizesse parte. Ah, meu pai... a lembrança vem e me vai. E minha mãe: ela não entende minha mão não mais entrar nos copos de vidro da casa dela (aqueles de requeijão e extrato de tomate). Não adianta, ela ainda pede minha ajuda pra arrumar a cozinha, e nem digo que o fundo dos copos permacerá molhado, ela diz: "Faz o que eu mando e guarda o que cê sabe". Nessas horas eu sinto minha idade dividida por quatro e o amor de minha mãe por mim só multiplicando, ultrapassando as barreiras dos números reais, big bang de amor cuja expressão numérica não se revela às minhas operações fundamentais. Enfim, no fim das contas o fundo dos copos seca: ajudo no que posso e o evaporar faz o resto.
Não se trata de subtração, mas de uma conta estranha: tudo isso colabora pro meu mundo tornar-se diferenciado, não-igual ao que era nem aos que outros são. Pra não me sentir ainda mais menor, não fico de-mal de mais ninguém. Antes ficava de-mal demais. Ficar de-mal é "do mal", prefiro rir das vezes que disse ou ouvi belém-belém nunca mais fico de bem, e no outro dia...
Mesmo menor que os outros, penso eu que penso muito. Acho que penso muito o mundo que é meu mesmo assim: menor e muito.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

O Relatório Valmer

-"Numa mesa bem ao centro, com um calendário à direita, o telefone celular desligado e o corretor líquido à base d'água no lixo, contando as páginas em branco que tinha, através de um bilhete rasgado, prometido a si mesma que preencheria, ela arrumava por sobre os livros antigos sua mais nova coleção literária de autores ainda pouco criticados pelos especialistas da área. Molhava o dedo na glicerina, tocava folha-a-folha, virando-as e imprimindo sua digital no lugar em que deveria constar cada número de página."
-Isso é tudo até agora, Robert.
-Ainda falta... próximo passo: sinais de agressão. Peça a ele que se atente a isso, e que faça outro relatório.
Após ler em voz alta o relatório, Ylla recebera ordens expressas de Robert para que avisasse Valmer sobre a necessidade de uma investigação mais a fundo do desaparecimento de Marla.
Ylla, não sabendo como dirigir-se ao chefe para relatar sobre a obviedade que havia na cena do crime onde estavam (e que faltava no relatório do encarregado pela investigação, o detetive Valmer), amenizou o tom e o volume de voz, dizendo quase sussurrando:
-Capitão, aproxime-se da estante. Capitão!
Robert interrompe o chamado de Ylla. Depois de sentir o cheiro do jantar, derrete toda a cena do crime. Grunindo como pai-babão, bagunça o cabelo de Yla, que reclama:
- Ah não, pai! Vamos continuar, a Marla pode estar em sérios apuros (levantando o braço direito ao céu e levando ao peito) Não deixemos que nossas necessidades nos tirem de nosso destino!
Robert, acompanhando tudo com um grande sorriso e sempre caminhando em direção à saída do escritório de sua casa, desce as escadas fazendo caretas de pai para a filha como convite a uma perseguição que culminaria numa mesa farta de arroz, feijão, carne, tomate e alface.
Yla suspira nada contente, embora aparente estado de "eu já sabia que ele não resistiria ao cheiro da comida". A garota passara a semana inteira planejando o que brincar com seu pai aquela que julgava ser sua obra-prima das brincadeiras e jogos. Deliciava-se com O Relatório Valmer que havia criado e terminado naquele mesmo dia. Pensou não poder parar agora, mesmo estando com fome.
Yla, então, gira em torno de si com os olhos fechados e, em instantes, vê-se terminando o giro e abrindo os olhos diante do exato espaço vazio de um livro que havia na estante. "Que livro seria?" Antes mesmo de completar seu pensamento, um ruído vindo de baixo da mesa lhe arrepiara a espinha. Cautelosamente ela se aproxima da mesa, põe a luva de silicone que trazia ao bolso para não contaminar a cena do crime, vai dobrando os joelhos e abaixando a cabeça e o olhar, certa de que ali estaria o "risco de sua vida" e, numa mortal tentativa de agarrar o responsável pelo barulho, Ylla joga-se no chão.
-An-Gu-Gu! - A cena do crime derrete novamente. Yla deixa a cabeça cair até encostar o queixo no peito. Seu irmãozinho Valmer, babando e sorrindo, estende as mãozinhas em direção à irmã para que o pegue no colo.
Seu pai, Robert, e sua mãe, Marla, sobem as escadas. Marla com um pano de prato, vestindo um avental, a enxugar as mãos; Robert, após ter lido mais um capítulo de contabilidade financeira, recoloca o livro no lugar que lhe era reservado. Marla coloca o pano de prato no ombro e agaixa-se para pegar Valmer, que continuava com os braços estendidos. Robert pega O Relatório Valmer, dobra-o ao meio duas vezes, coloca-o no bolso e, agarrando Yla pelas pernas, leva-a por sobre o ombro direito sob protesto: chutando o ar e, com seus punhos cerrados, acertando as costas do pai (que simula dor e gemidos).
Marla sai na frente e Robert, ao sair, apaga a luz e fecha a porta do escritório que, escuro, parece chorar a ausência de Ylla e a presença do livro errado no lugar certto.

sábado, 4 de agosto de 2007

nosso texto

Meus pensamentos se encontraram com teu corpo noite passada. O que passava, além do tempo, era um momento tão lindo quanto a água que, ao tocar o céu, se divide em vários pedacinhos pra evaporar antes de ser lago de novo. Pedacinhos de chão no céu, show de estrelas, uma lua cheia, uma noite verde à beira de nossos anseios, quase que inteiros num só lado.
Escolhemos o caminho antes de saber pra onde ir e simplesmente fomos. Fomos surpreendidos por aquilo que por anos negamos e, da forma mais simples e mais "ais", amamos. Sobre a grama, sob o céu, ao som de uma cachoeira de papel, desenhamos nossos rostos e desejos na areia de nosso tempo: presente.
Antes que um mar de desilusões invada nossa praia, brincaremos de escorrega na cachoeira de papel, brilharemos nos olhos de quem lembrar do nosso "olhos nos olhos", tudo depois de um leve toc-toc no firmamento.
Tornamo-nos milhares de pedacinhos, cada um se encontrando noite-e-dia, sussurrando, num ato de simplicidade, o que há muito fora silenciado; gritando em uníssono nosso carinho em reciprocidade. Sentindo a simplicidade da vida na brisa (que nossas mães, com a testa enrugada, teimam em chamar de sereno) vamos tateando nossos beijos, respirando um ao outro, um no outro, sentindo o gosto do amor que experimentamos no agora.
E ao fim de mais um dia juntos, executamos mais juntos ainda uma sinfonia de sorrisos consonantes, descobrindo pouco a pouco em que lugar tocar para encontrar e fazer soar os harmônicos de nossa semi-breve existência.
...
à ju,
meu amor

de noite ver te

ver de noite
ver te, noite verde
ver te, de noite
ver
ter
verter d'olhos nos meus nada verdes
nadar d'olhos nos olhos
como seus lábios
como seus lábios dizem
noite-e-dia-a-dia
como se fosse a primeira vez

sábado, 23 de junho de 2007

som de relógio orgânico

descalço em frente ás portas que me importam
esquento-me chamando de dentro
Enquanto cortam o nascer do sol,
o Momento

calça de gelo e relógio ao bolso
mão que só respira porque chama
braço, corpo e cabeça que não rendem
num Instante

o Som das batidas não invadem a rua
ninguém que se permita convidado
evito-me sangrar por novidades
pois som bastante vida traz aos pés

sem auto-piedade, somando,
procuro saber das horas o Momento
eis que perco o ser binãrio neste Instante
reunido em desTempo, neve-carvão

quarta-feira, 13 de junho de 2007

mosaico

papel
tesoura
corta
pedaço
pedaço
corta
papel
pedaço
cola
pedaço

e vão montando vidas inteiras.

as cadeiras aindas estão vazias...

Desde que o café ficou pronto, deixei de acompanhar o jornal das oito pra sentar à beira da casa, levando o pretinho pra tomar ar. Era ali que meus conpanheiros de conversa vinham me ver. A xícara da mão direita se retirava pra dar lugar aos pontuais acenos que eu me disciplinava em realizar. Embora estivessem com pressa, meus amigos, sempre de passagem, não deixavam de ter comigo dois dedos de prosa (minhas mãos agradeciam o labor): -Noite! -Tudo bom? -Bom, e o senhor? -Bom. -Paz, noite! Minha palavra final mexia com meus queridos amigos que ali passavam pra me ouvir bendizer seus passos. Agora era assim que eu realizava: aoceno.
Meu trabalho anda prejudicado. Comecei a ler sobre o que dizem a respeito de meu ofício... Desde então passei a tomar mais café, só assim pra ler mali-mais os escritos que tratam de minha profissão. Que triste! Após anos de progressiva ausência de clientes, descobri que o principal inimigo das bênçãos que eu praticava estava nascendo de minhas leituras.
Lembro-me de rezar o que me era sabido por vezes sacudindo pedaços de folhas verdes colhidas em tempo certo que tinha a ver com o intento da bendição. Hoje, os nomes dos procedimentos, que durante séculos sustentaram a salubridade do mundo, me escapam à saúde da memória. Melhor assim, disse o doutor. Meu doutor outro não se preocupa em dividir comigo o peso de minhas compras quando saio a caminho de casa depois de com ele tirar dúvidas sobre mim. Ele é diferente de nós. É assim que eu sinto, mas me aconselham os mais jovens que não devo ir por onde eu sinto, mas pelo que ouço. Não posso usar das oiças pra retrucar a ofensa que me desajeita o juízo que eu tenh... tinha. Ai...
Meu Deus, de onde posso eu tirar as forças de que careço pra deixar de tomar café?

órgão

Descalço em frente às portas que importam,
esquento-me, chamando de dentro,
o que cantam ao nascer do sol.

Calça de gelo e relógio de bolso,
mão que res-pira porque chama.
Braço, corpo e cabeça que não flama.

O som das batidas... invadem a rua.
Mas ninguém, se convidado,
permite sangrar-se, e nem
às novilanças trazidas ao pé
opor-se.

Sem auto-piedade, somando,
procuro saber das horas.
Pois que perco o serune.

Faz-se sabido, tragado,
trazido.
Um imenso e impreciso
neve-carvão.