sábado, 23 de junho de 2007

som de relógio orgânico

descalço em frente ás portas que me importam
esquento-me chamando de dentro
Enquanto cortam o nascer do sol,
o Momento

calça de gelo e relógio ao bolso
mão que só respira porque chama
braço, corpo e cabeça que não rendem
num Instante

o Som das batidas não invadem a rua
ninguém que se permita convidado
evito-me sangrar por novidades
pois som bastante vida traz aos pés

sem auto-piedade, somando,
procuro saber das horas o Momento
eis que perco o ser binãrio neste Instante
reunido em desTempo, neve-carvão

quarta-feira, 13 de junho de 2007

mosaico

papel
tesoura
corta
pedaço
pedaço
corta
papel
pedaço
cola
pedaço

e vão montando vidas inteiras.

as cadeiras aindas estão vazias...

Desde que o café ficou pronto, deixei de acompanhar o jornal das oito pra sentar à beira da casa, levando o pretinho pra tomar ar. Era ali que meus conpanheiros de conversa vinham me ver. A xícara da mão direita se retirava pra dar lugar aos pontuais acenos que eu me disciplinava em realizar. Embora estivessem com pressa, meus amigos, sempre de passagem, não deixavam de ter comigo dois dedos de prosa (minhas mãos agradeciam o labor): -Noite! -Tudo bom? -Bom, e o senhor? -Bom. -Paz, noite! Minha palavra final mexia com meus queridos amigos que ali passavam pra me ouvir bendizer seus passos. Agora era assim que eu realizava: aoceno.
Meu trabalho anda prejudicado. Comecei a ler sobre o que dizem a respeito de meu ofício... Desde então passei a tomar mais café, só assim pra ler mali-mais os escritos que tratam de minha profissão. Que triste! Após anos de progressiva ausência de clientes, descobri que o principal inimigo das bênçãos que eu praticava estava nascendo de minhas leituras.
Lembro-me de rezar o que me era sabido por vezes sacudindo pedaços de folhas verdes colhidas em tempo certo que tinha a ver com o intento da bendição. Hoje, os nomes dos procedimentos, que durante séculos sustentaram a salubridade do mundo, me escapam à saúde da memória. Melhor assim, disse o doutor. Meu doutor outro não se preocupa em dividir comigo o peso de minhas compras quando saio a caminho de casa depois de com ele tirar dúvidas sobre mim. Ele é diferente de nós. É assim que eu sinto, mas me aconselham os mais jovens que não devo ir por onde eu sinto, mas pelo que ouço. Não posso usar das oiças pra retrucar a ofensa que me desajeita o juízo que eu tenh... tinha. Ai...
Meu Deus, de onde posso eu tirar as forças de que careço pra deixar de tomar café?

órgão

Descalço em frente às portas que importam,
esquento-me, chamando de dentro,
o que cantam ao nascer do sol.

Calça de gelo e relógio de bolso,
mão que res-pira porque chama.
Braço, corpo e cabeça que não flama.

O som das batidas... invadem a rua.
Mas ninguém, se convidado,
permite sangrar-se, e nem
às novilanças trazidas ao pé
opor-se.

Sem auto-piedade, somando,
procuro saber das horas.
Pois que perco o serune.

Faz-se sabido, tragado,
trazido.
Um imenso e impreciso
neve-carvão.

pintando o oito

Os movimentos que observo,
Eu a caminhar e, dançando,
Agarro a ti e, volta e meia,
A mão direita segurando,
Dando tchau com a sinistra,
que a direita corresponde,
Estando a sua me agarrando,
O s corpos se avermelhando,
O mundo gira, e nós parados
à conduzir os dedos
rumo ao firmamento.

Os sem-limites riem pés que constituem
Espaço, espaço, espaço
Não mais passa o tempo
Não mais vento
Não mais olham o chão
Não mais não
E tudo é soma

Após frutos permissivos
e cores sapientes sem tamanho
chamam cilo-pés humanos
os que pintam o infinito.

às pedras, com carinho

A cata-pedra com seu jeito lapidar
Purifica o sêmen pagão,
Presenteia, apresenta: produção
de imagens turvas.
Atravessa os filhos d'água.

Inda estão a preçoar a mágoa.
Com tudo vejo-a fazer-se sã do sol
Dança a driblar isca e anzol,
de suor-rizos, tilintar de guizos.

Determina o que quer que se compre
Não se perde pelas partes impuras da terra
Produz cacos pra que o chão, passado-muro,
se consagre ao seu bel prazer passar.

Sons que vejo, passar que percebo
desejo-tenho: transmutar meu organismo
mais que ar, menos que pó
danço a música das luzes
que refletes: meu metamorfosear.

pérola dissonante

Eu te transformo quando quero
sem passes de mágica, labuta.
Se se encontra parada vendo o belo,
queira-se e trabalhe. Senta e escuta.

Tal e como o colo de mãe: exemplos
de perda de células pra ganho de pérolas,
arranque-se dos brinquedos-raízes,
treinamento de medidas.
Caminhe criando seus próprios contentos.

Sei das preces e de como ditam pressas;
se deprenda das túnicas vigilantes;
Tape todos os ouvidos. Caminhante,
dite ao tempo o ócio, perca a remessa.

O trabalho artesanal dói quando deixa
o que viria de lado se acabar na sua frente.
não importa quantos anos tens! Aumente
a vontade de guiar-se por si, Cálida.

caminhada

O sujeito lê com o mundo ao ventre
Que todo o ar expelido pode ser reciclado
porque, mesmo sujo, hàrvores,
só por serem o que são.

O sem jeito lê e não respira,
têm rizóides entupidas, tragam enxofre
a força do além age
sem piedade.
Parada obrigatória, cômodo queimar.

Se leio, sei que tenho pés pra caminhar
e pra dizer que cansei porque, um dia,
carreguei,por vários dias,
o necessário filho das letras.

Assim vou caminhadno...

mym dog

O meu cachorro de cor preta
e raça vira-lata
(e isso é lá nome de raça?!)
fareja de longe o osso,
investiga seu paradeiro,
identifica o meliante,
captura a presa
e sacia seu desejo de agosto
no natal.

O meu cachorro de cor preta
ao voltar pra casa
cuida da cria,
toma banho na banheira,
lambe os filhotes
e come o jantar.

Depois de bem servido,
vai dormir com um olho aberto
e outro fechado,
focinho atento...

Mesmo dormindo,
preza pelo bem estar de seu dono
e de todo patrimônio
que não é seu.

Vai pegar, fui!

família

Os círculos me acalmam pois preciso
o tempo, reclamando do serviço,
corrida mais tranqüilo que dormida
em colo. Dão comida a quem se irrita.

Mastigo,se fossem restos, comeria
movimento circular: mandíbula,
movimento circular: vigias,
círculo-caminhar: pés-de-pílula.

Mistura: abobrinha cozida com chuchu,
e um primo que me entrega ao delegado
por uma dívida assinada em cartório.

O dinheiro verbal que dei a tu
faz-me perceber o girar-mundo. O delgado
Me convida a um faminto velório.

tenho o que meu tempo de vida permite

Tenho medo de perder tempo com meias palavras
mas as palavras só me soarão inteiras
eu não mais puder respirar

A incompletude me compõe e como negar o que me forma?

desde que separei escrever e escrevinhar,
joguei no espelho meus p´reconceitos
expus-me à auto-crítica.

estou me consumindo em letras minúsculas
Mas já sei reconhecer que meus lábios
não beijarão o sentido uno de palavras
que só conseguirei pensar alto
e ser julgado, amado e/ou odiado.

Meus cumprimentos à perfeição
ela me acompanha por onde passo
gritando melodias: "Você não sou eu".

começo recente

Dores no corpo
Olhos poucos atentos ao horizonte
Meus pés são meu foco
O destino, minha faca.

Eis que meu sangue liberta-me
da anestesia.

vi são, re-allhe

Não desconsidero uma herança valiosa
e significante que corre foge do gato.
Não paro minha leitura delirante
por causa. Se pauso, é só isso.

A medida que pessoa à pá lavra
cada semente põe um professor na figura
cada desavisado trabalha até hora-pós.

Quero demais saber se significo
o que não sei enquanto arcaico.
Minha posição não cabe no que sois
sobram lacunas que tem filhos,
que tem filhos... sapram "termos"

A fim de ter mais que humildade
Ao fim dos termos umidifico de perto
O que não pesa, trabalho gosto-de-adubo
Fecundar se bem se mal, ir horas-pós.

Esse não é o seu caso que egos desprezam,
O que não é seu problema é ao que meu zelo ser porta,
E nada mais passa quando
não mais aconselho como
cada cabeça de infindos pós-(t)-umos
de imprefeitos-papéis, papiros em pira.

Eis o centro integrado lesionado
e todas coisas todas em horas-pós.

estimativa

Quais verificações virão a ser consideradas?
[roupas claras me desengrenam a vista]
Os meus ruídos de desgaste travam meus desejos vis.
A moral me enferruja a original libido.

Os meus produtos saem indefinidos,
sem desiluções e negação,
indefinidos: questão emocional.
São produtos-ex machina
sem marionetes-tudo.

Perdidas coordenadas que trazem meu destino orgânico,
perfídias atrasadas que me sujam com pólen, sois sã et
néctar da ferrugem [doce imagem da vida que emperra].

17/05/06

audire

Eu ouço rumores.
Não há quem esteja do meu lado,
estando,
se mostrando pelos nomes, todos meus.

Eu (os "ós" sós tilintam -
és tão...), não estando só
brilham e vibram-me
os ouvi dos sãos.

geometria: deste, nada

Nas brandas quinas de dentro
há! há! há!
de lado, ao lado, são tás e buns
Cubículo.

Nas envenenadas quinas de fora
há sem é!
De lado a lado foram tás e buns
Retângulo.

No mundo cubo, dentro e fora
o que é não mais tem quinas.
Os lados se consomem e se fecundam
há! e há sem é! permutam dores.
Não há por todo sempre ecos,
seremos dia, diluídos em ar viscoso.


Não mais seda,
não mais tátil,
sinuosidade e transparência
em classificação de língua,
sede.

o nascimento da mãe

Estou distante dos seus vícios sessenta risos clínicos
em substituição à autoria e aos sintomas do sucesso.
Meus tipos de problemas são exemplificãções espontâneas
que não adoecem sua classificação evocativa.
O meu próprio depois sem manchas gera
o então, um outro tipo de dificuldade.

Talvez as maneiras se dêem de todo o bem.
Por que conceito sinto sua má clinicitude?
Seu rísio não me representa seus livros.

Vou no então pelas lesões, vou afetando o tratamento,
retomando o necessário para andar sobre dois pés
de eliminados-calcanhares. A outra ponta do arco e lira
de gerações está por fios em queda branda ornamentado.

O natural é meu criado e a questão torna-se carga.
A ocorrência dos seus "quês" não são sabidos-geralmentes
Parecem sem tensão. E assim, entendo o que se pode.
Se o normal me ver tranqüilo, não se tem mais teu serviço.

Não tem quem diga: -Tamanho!,
que não tinha-se em: -Derrame!,
e se fez de dado vício
que não mais madurar possa.

Todo filho desse tipo
Pode passo evento-luz
Pesa a pausa e o silêncio
e se permite ombro-sonho.

filho de sangue e criação

Acharam tuas justificativas
jogadas no meu berço.
Pra que não encontrassem teus erros
levei minha manjedoura pelo calor a fora.

O cansaço toma forma de vozes:
a segunda conseqüência de meus atos
(corre sem ter como,
come sem ter como).
Desvaneço na saciedade da fadiga.

Meus dedos, um a um, perdem sua função.
Minha mão, solitária, se despede de meus braços,
(pois fim) tronco não mais, toco sem raízes,
tem clamor calado e manto (segure!).

"Nunca desistiram da perseguição,
lavaram os pés no meu sangue desejoso.
Antes de ouvir um bocado dos jurados..."
(silêncio suado, olhos abertos: morde).

baque

Qual maneira você quer
que se queira, que te chame?:
Telefone, telefax,
secretária, carta, "ou!"
flyer, walk-talk, bilhetinho,
ofício, mala-direta,
link ao vivo, carro-som.

Da maneira que me queres
que eu não queira:
tuas roupas calouras,
teus cabelos combinando
com as roupas, teus beijinhos
cor de virgem desbotando,
desconsolo de credítos
voadores distribuídos,
coração em desconsolo,
amor sem fundo, cheque e mate.

ópulo sapístico

Quais seriam minhas puoquísses
os meus danados que me acabam?
O que acham dos meus gestos
que não se mostram no que dizes?

Se o que não se empresta como
o que se tem contido in puro
encerra comentário xulo
com "senhor" iniciando.

O especular é o que recuso
"n" ou "x" sem resultado ou
pressuposto, faço pulos
de contatos demorados.

rascunhos

Misto de antigos e internos segredos
que mostro em meus cálidos papéis
faz-me perder em eternos começos
em labirintos mais fácil fazer-me.

(Esqueça os dourados retratos que escrevo,
sentidos em face e desejo cortantes.
Proteja-se em luvas que eu mesmo emprestei
sem lágrima ou sangue de antes, lavadas.

vezes 2 = 2x

As duas vezes do que fomos
Se me deram em questões
Dados e dados dados
Jogo analítico à mente.

E tudo se faz diverso
Disperso, não mais conjunto
explícita e sóbria que implica
a dor, ida de pensamento.

Não respondo ao horizonte
pois teu cérebro não se contenta
com minha (in)vocação.

O mais fácil do acerto
é menos falar objetivo
é ter-lhe olhos: subentendo.

acalanto

Os meus relatos demoram a mandar-lhe o que me prende o riso. Minha agenda não me treina o gesto que lhe envio em atraso. Se pudesse eu amar-te à tinta, procurar-te em tua pele e saciar os meus receios com divãs de confortáveis "compreendo", abriria meus poros e trocaria meus pelos pelos teus, e da raiz de teus cabelos provaria da tristeza e do equilibrio.
Basta uma parte de seu cárcere, um único tombar de pálpebras, para que meus provérbios percam sentido, pra que eles se preocupem apenas em me nutrir dos pés à tolerância. Para que eu me veja de novo, apenas mais uma vez, amparando-te o desmaio, quero velar teus poros abertos quando não mais houver tua covardia.

(texto que compõe "Adiamentos", de dheyne de souza: www.incontinenciapoética.blogspot.com)

solicitações

(Mais um...)
Tem não!
Cinco? Vou ver.

Mais um?
Esse tem.
Já foi!

Sim, senhor.
Deixou não.
Liga depois.

Hoje não, obrigada.
Trouxe de casa.
Vai bem, obrigada.

Até amanhã.
Termino amanhã...
tá bom!

(E a Maria?)
Só isso?
Amém.

Amanhã num dá.
Falta de tempo.
Claro que vamos!

Tudo, e o senhor?
Era só febre.
Amanhã posso!

-Um momentinho...
Tem sim senhor!
-Então té +.

Pois não?
Não senhor
Não seria melhor...

(...
...
...)

Bom dia...
(Pela Maria,
só por ela!)

percálcio

Farelos me conduzem da retina à solidão
Um instante, instinto s/n°, soberba atenção
desmembrada, sem cantos, sem cantos
para cada sentido um lugar no corpo
para cada sentido um lugar na linguagem

eis que linguagem e corpo se separam
se encontrado, paralelas,
em algum outro percálcio.

(comentário da dheyne)

As sangrias que respondo por meus receios
não são nem de perto nem de longe cicatriz
Mais que falta de palavras, é segredo

meus receios

As sangrias que respondo por meus receios
não são nem de perto nem de longe cicatriz
Mais que falta de palavras, é segredo.

O que cadaveriza um diálogo,
o que desmistifica um pólen
o que mortifica o poder ser
um crédito d'amor que é desdito.

Maltrato do eufemismo em procissão
consumo dos meus risos em seqüência
Desdigo, se preciso for meu golpe,
contra cada romaria surda e cega.

valoração

O mundo que conheço
é embrulhado em embalagem
de papel REPORT
pois minhas pastas estão na loja
e os papéis virgens já foram vendidos.

Os meus ouvidos sãos,
saturados de gratuidades humanas,
não se permitem mais ser entrada de falaceadores
que permutam das palavras os sabores
com abraços de "quer carona?".

O meu mundo no papel
desagradavelmente é o melhor que existe
pena que não saia do grafite
para a máquina massificadora
de grandes engrenagens sinceras.

O meu ódio
vem do carregar lembrança acústica,
de decifrar em olhar corrosivo tua astúcia,
de não poder publicar que teu beijo putrifica.

E, antes que eu também me torne rica,
trespassarei um garfo em cada parte que tocaste,
pra que a minha pele do ouro de suas unhas salve e guarde,
pra que haja vida, ao menos, em viva carne.

mãos de vidro quebrado

Quintal de vidro
Numa caixa sem quinas
Não há teias de aranha
Não há, e isso é bom.

Nada de insetos
e isto é planta sã.
Se houvesse o que brotasse
da límpida vidraça quintana...

Meus passos despedem-se
da terra e dos fios
Sem norte e sem morte, nem sorte
Amém, corte
dos vidros, e tem-se passagem;
dos fios, e tem-se barragem;
da vida... passagem?

sempre há busca do partir
E nenhum pensamento sobre
o aproveitamento do espaço de quinas
ou de suas ruínas.

Apenas lamentos e cacos nas lágrimas,
Mãos molhadas e sangue nas mangas da camisa.

patriarca

quaisquer que sejam os desejos de maestria
reduzo às cinzas o olhar de sangue irritado
quaisquer que vejam a atitude-sangria
sentirão, espero, o ser-chefia coagulado
(...)
e que delícia de cor nos pés!

eufemismo

Eu quero ouvir uma notícia inevitável de morte da boca de minha mãe.

lembranças

"Sinto-me em quarto escuro, mas este não é apenas mais um daqueles que olhamos, ignorando o seu passado. Estou no quarto d'antes de minha mãe... agora escuro (o seu silêncio não me causa menos aflição que sua penumbra no rosto). Busquei conforto, mas tinha-me tenso. Procurei aconchego, encontrei-o... no chão. Foi o que pôde ser oferecido a mim naquele instante. É engraçado como atento-me a ti e não me notes. Quero conversar, não me ouves... isso por que fui?! Eu precisava, porém, agora encontro-me aqui. Como queria dizer-te isso, mesmo por palavras, te tocar os cabelos, sabendo que não receberia coisa alguma em troca, embora não tivesse a intenção de nada lhe cobrar. Hoje, me cobro o que devia a ti e me neguei tal dúvida aceitar. Mais uma vez, pergunto-me se tenho o direito de lamentar-me pelo que fiz. Te perdi. Disso sei. Saber..., minha racionalidade é o que menos me merece. Ela já me teve em demasia! Neste exato momento, se pudesse fazer-me teu novamente, seria lágrimas, as que derramastes quando me vias e bendizias meus passos. Eu, em troco, lhe dedicava minhas costas. Tome. Pegue. É seu! Não é muito. Contudo, é menos ainda sem tê-la. Disso, faça o que quiser. Tens o direito adquirido, através de minhas atitudes passadas, de bem entender-se sobre o que agora carregas. Só peço que me avises para que eu saiba que, bem ou mal, ocupei mais uma vez tuas preocupações... será-me emoção sentida, coração tocado por quem, um dia, o preencheu com tanto amor. Neste jardim a luz me cega. Não importa! Ainda é pouco! A vida continua!"Sentindo o desprezo do esquecimento, ele vira as costas enquanto ela, por causa deste simples movimento feito pelo bastardo, passa a ter lapsos de memória. Foi na clínica de repouso Acalanto, no quarto dos indigentes. Ela se negou o esforço de segurar a responsabilidade pela segunda vez.
(continua)

anonimar

_ ... meus joelhos doem, o meu corpo está pesando, entenda..._ Clemência?! E eu preciso entender o porquê da tua dor? Eu, que peso a minha por pensar, que descubro-me a cada dia e, nessas, percebo o quanto gozo do mal alheio?! Assim me livro do peso que não me agüenta. Tens o poder de satisfazer-me! Sinta-se na honra de um momento incomum! O prazer está nos meus olhos e percorre o chão que beijastes há pouco. Vê?_ Veja que o que me dói está maior que a calma e o gozo. Não suporto! E me permito pensar na supressão do sentir-me mal, esquecendo o mundo, buscando o prazer da dor que passou: alívio!... não que te ignores... talvez sim... por instantes, mas estes, passados..._ Aceite! Estás se vendo e a mais ninguém. Não há problema algum. Não pecas pelo que ouvi, não és mais que um: não pode se gritar e se socorrer ao mesmo tempo. Mesmo que conseguisse... não basta ao humano que és. Necessidades. Precisas do outro, mesmo que para negá-lo “por instantes”._ Sua análise do que me sai já em delírio me enoja! Estás cego! Tudo o que reluz lhe é nada! Desprovido da compaixão, excitando-se a cada sôfrega palavra que desperdiço, me enojas, atitudes execráveis de um qualq...(...)_ Teu sangue lava agora tua boca e, assim, te perdôo.

(texto publicado no 19 ° DC)

afresco

Nao faça-me sentir como um resto de mundo debaixo do tapete. Tenho muito ainda a te oferecer, meu parente. Nao se desfaça do quadro qualquer que enfeita uma das paredes de sua casa. A obra so nao e apta ao merito graças ao credito que pouco lhe da o dono da casa. A vida e assim, meu amigo: voce segue por onde acha que deve, ve que nada lhe serve... mas continua experimentando. Logo ve-se as palavras do quadro por efeito desiludido tendo por causa o pular pessoa a pessoa e a afeiçao lhe desejar bom dia do outro lado da rua e sem intençao de dedicar um minuto de sua atençao a um faminto por amor, estando este apetite sem esperança. O dono do quadro se expressa usando calças as canelas e meias aos joelhos, e eis que enxergam um alienado problema que figura o estado de consciencia de quem o percebe como tal. Palavras, principios, borroes de tinta fresca. A tinta e fresca, ta...... Nao importa quem, o que ou quando, sempre se e novo pra quem o viu nascer. Deveres, responsa, linhas cortadas, roupa pronta e passada - redundancia estetica pra qual nao dou a minima! Nunca lhe darao o "devido" reconhecimento. Sempre vao achar que voce nao merece aquele lugar no cantinho aconchegante de um lar com trabalhadores autonomos, num meiozinho excitante de um bar com negadores anonimos, como nao acharao que a familia o merece la, pendurado. E assim, camarada. Nao mais que uma imagem parada, nada alem disso sera. A nao ser que seu pai seja falecido e europeu.

(texto publicado no 18° DC)

duvidar sempre

As gotas da chuva são facas cortantes amenizadas por Deuspara nos matar pouco a pouco a fim de pagarmos por nossos pecados os quais esquecemos todos os dias.
As nuvens, carregadas e negras, se tornam as mãos da justiça responsáveis por nos (sub) julgar, fazendo-nos lembrar todos os dias do que esquecemos.
O escoamento das águas nos arrasta os pés, provocando o encontro de nossas costas com o chão.
Nossos olhos, privados de lágrimas, contemplam, agora, o infinito céu em fúria.
Os raios do Sol cecam nossas feridas as quais as gotas rasgaram, e nos dão a esperança de que nossos pecados serão eternamente renovados.
Tão grandioso é o fato, fazendo com que Ele leve as mãos ao rosto para não nos ver secar, que me atrevo, todos os dias, a fazer-me nuvem carregada:
o Sol é criação divina.


(texto publicado no 16° DC)

n(ã)o g-ê-n-e-r-(o)---a-l-i-s-e-me

- Olá.
- Oi. (Isso. Sente-se. Tome um café. Verás como te recebo como quem se atenta à Quarta banda alternativa da noite que toca a Quarta música de dois minutos do compositor que tinha o quarto por companhia, a arte por razão, o agir por satisfação e a vida por religião. Mesmo quando esta lhe causa dúvidas desconcertantes ou dorme de cabelos soltos, mãos próximas ao rosto, pés se aquecendo, e olhos se escondendo do mundo em movimento. Voraz como o sermão do teu pai à janta, de tua mãe à faxina, de teu irmão ao futebol televisivo, é a forma como insulto a ti em minha mente só por ter aqui estado, da comida se fartado, do vinho provado, no banheiro se aliviado, do telefone usufruído e a minha mão estendida rejeitado quando o que mais se ausentava de mim naquela noite era o completo apoio moral, subjetivo em classificação morfológica, mas concreto como a ti mesmo, tudo isso naquela mesma noite. Também fiz tudo isso: estive em seu corpo, me fartei de seu barulho, provei daquele lugar imundo, aliviei-me com vários suspiros e usufruí de sua imagem me embebedando, os olhos quentes em suas promessas. E você vem, bebe da minha boca, come da minha cama, se farta da minha carne e me deixa de mão ao ar. Não me conhece, não é? Pra mim, você é “eu”. Pra você, eu sou “tu”. OK. Tá bom. Use-me. Se gabe aos amigos. Fodam-se as idéias, os ideais, os que mais pareciam valer a pena. Só meu corpo está contigo. Só, meu corpo parece estar aqui. Mas algo me espera além daqueles selos de adolescentes: drogas, tragos, bagos, bundas, imundas vidas boêmias, algo maior que o seu indicador macho-irônico sexual, algo muito maior. Algo que verdadeiramente existe e que, honestamente, é a única coisa que merece espaço em minha mente, meu amor. Não me guarde em lugar nenhum dentro de você, aliás, guarde-se do mundo. Faça-me esse favor. Ou aprenda algo próximo do que, geralmente, as pessoas simplificam: “sentimento humano”. Cretinice. Olha, ainda ri! Que desgr...)
- Até mais.
- Ah! Tchau.
- E hoje à noite, o de sempre?
- É só ligar...

(texto adaptado do publicado no 15° DC)

( )

- Traga um copo com água pra mim!- Sim, senhor.Após ter entregue o que lhe foi pedido, João sentou-se junto ao balcão e aguardou o próximo “pedido” do seu patrão.Assim se dava a conquista dos seus duzentos reais, sem creditarem no seu salário a paciência e seus problemas pessoais, inevitavelmente perceptíveis em seus úmidos olhos, nem acreditarem no seu verdadeiro objetivo de vida: ajudar, sem olhar a quem, pelo simples prazer, porém riquíssimo valor, de tal humanismo. A quantia lhe era entregue no final da tarde do último dia de cada mês para que ele começasse bem o próximo período de prestação de serviços.Mas João pensava. Via os rostos tristes e gastos das pessoas que passavam (pois caminhar é luxo, hodiernamente) por ele nas ruas e que participavam da mesma maratona que ele, em busca do mesmo prêmio mensal. Sentia aquela situação transformar-se em dor de barriga. Via-se trabalhando em algo que não acrescentaria em sua vida absolutamente nada, a não ser um pouco de comida, e percebiam-se novamente as nuvens carregadas de seus olhos descarregarem-se, mas logo se escondia da tormenta, pois seu patrão (pediu outro copo) podia não apreciar o gosto de lágrimas em sua água, gosto de dor e tormento espirituais que se liquefaziam nos acusadores das noites mal dormidas de João.Sim. João filosofava. Analisava sua situação atual em contraposição aos seus sonhos inacabados. Mal via a hora de resolver suas dívidas e de liquidar aquela terrível dor na barriga. Ia ao banheiro do trabalho e, absorto, ficava um certo tempo sem conseguir produzir sequer uma obra, sem obrar. Porém, viu que esta era a oportunidade de pensar sem ser pressionado: sentava-se, após arriar as calças, e punha-se a pensar: fome, miséria, riqueza, egoísmo, causas e conseqüências. Pensava tranqüilamente, pois, se o vissem naquele contexto, não indagariam a causa de sua estadia ali, deduziriam.Chorava... Sofria... pois pensava!Sim! João pensava. Por isso chorava. A vida de João era pensada, e Ele o ajudava. João acreditava Nele. Talvez o problema esteja em mim... por Eu não crer nele.João pensava, Eu não. Não sei se realmente não penso, ou se ignoro tudo e todos, até a mim mesmo apenas por não querer preocupar-me. Sei lá. Mas agora tenho que retornar ao trabalho. Não se preocupem comigo. Já lavei o meu rosto.
(texto publicado no 14° DC)

momentos e seus espaços

Em um dado momento, ele se lembrou de como a vida é bela e as flores e todo “o todo” (e não “o resto”) são essenciais para a contemplação e sensação humanas. Ele viu a flor-mãe a emendar seus problemas a fim de conseguir os sais minerais para suas mudinhas; viu0se maravilhado pela música que invadia seus meros ouvidos, chegando ao seu cerne e lá, firmando a idéia da fé que o guiava: a fé nos homens. Contentou-se até em ser um mero observador para, por um momento, saber como era o lado oposto ao observado.Mas de nada adiantou querer viver tudo o que há neste que é o mundo das possibilidades, pois estes três segundos foram o suficiente para que o sopro vital inerente a ele se esvaísse após chegar da viagem mais rápida de sua vida: a do décimo segundo andar ao chão..., sendo toda a sua ponderação sobre a vida e seus prazeres ignorada pela simples conclusão: “- Foi morte instantânea”.

(texto publicado no 13° DC)

podes tentar compreender-me, mas... só tentar!

Sentar-me em um lugar duro, frio, inerte, estranho, dá-me a visão de que estou sentado em mim. E se, ao me levantar, eu pisar em folhas secas, mortas, velhas, lembrando-me do mundo e suas regras, preferirei deitar-me, sendo esta a forma de sonhar o mundo valendo a pena olhar-me.
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Perfeitamente compreensível o fato da não necessidade de um beijo. Mas quando dado à e na pessoa que lhe desperta a sensibilidade e incomoda a razão, sem que tal ação provoque o pensamento de ser este o ato maior do relacionamento humano, saiba da última coisa a qual precisas saber: Sua presença no Mundo Humano é contestável e apta à conclusão: Desnecessário ser!
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Um gesto simples que é tocar o rosto próximo escreve histórias incontáveis nas mentes alheias brancas, prontas à impressão. Pena que a imaginação desta época só trabalhe os temas vis. Pena também encontrar-me como um "desta época".
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De olhar ao alto é que me canso
E por cansaço entendas alegria, amor.
De pousar em escadas, me distraio.
Por distração percebas tristeza, ódio.

E assim é que vou vivendo a vida:
Pousando em escadas,
Olhando, sempre, pra cima.

Embora, às vezes, eu decole,
Vendo-te cá em baixo.

(texto publicado no 11° DC)

“a vida é uma corrente de nós, como nós somos nós na corrente de outras vidas”

Algumas vezes, deparamo-nos com junção de vidas e confronto de valores que ponderamos, a fim de termos que encontrar o que se deve enquanto humanos: a convivência. Amar a vida não basta. Há de se olhar cada ação, cada coração, pois não vivemos sós, e os “nós” que emendam a vivênvia humana de cada dia são dados por todos que passam, mesmo por passar, por vós (por nós). Peço ao dia que se deite e ceda o lugar à escuridão da noite que lembra: raiva, dor, incompreensão..., inspiração, calma, paz..., a beleza que é a complexidade humana. Somos seres humanos, seres falíveis. E, por mais que possamos pensar em não fazer mal algum, somos um mundo de possibilidades. E, por mais que queiramos o mundo mudar, não há o que se fazer por alguém, além de nós mesmos, para resolver viver, embora não precisemos desatar sequer um nó.

(texto publicado no Editorial do 10° Demo Cognítio, ano 2002)

extinto

Você cuida pra que o descuido
Dos que te cercam
Pareça te machucar.

Você acha que de costas
Me dá todas as respostas
Pra não mais te acusar.

Aparente carência, se jogando à margem
Declarando miragens, olhares sangrando
Aparência por horas e horas: embriaguez,
pintando instinto de sobrevivência.

Descarta todos que o fazem ser,
O contrário daquilo que cuidou parecer.
Pra que a imagem não perca ser véu
Se faz com lágrimas que exalam absinto.

Brancura fingida, toma vinho por céu.
Se vê condenada vítima, vítima!
Todo aquele rubor que nunca foi seu
Se encontra aparentemente extinto.

tendà cultura

Gênero que serve de espaço ermanente para alguns
temporário para outros;
Pode ser feita de várias situações brasílicas
sem tamanho;
Barraca de altura;
Barraca d'arte;
Pequena loja de peças, produtor de cantaria,
Imagens Goiás plantadas em solo campina,
Brasil:
Artista-oficina.

par(ei!) - parei

Aquietar-se em muro alto
Que queda é que dói
Prever-se calado ante frívolos
Já besta uma basta
Cócegas, cáspita
Cágados, morsas
Mais uma de Zorra
E até a foca te corta.

Malograr

Carteado, cortar cartas
Carroído, inapetente
Sabedoria inane
Sacia doravante
As atitudes vícios vozes
Vagos termos temos
Três descartes tivemos
Todos sem razão.

Partido

Piadinhas poligínicas
País pluripartidário
Perversões pubísticas
Pobres Palavrões
Podres varões
Verdadeiros Vândalos
Pichadores de parede.

Admirando

Parceiros de gênero
Picassso, Paul Gauguin
Percalços por conseqüência
Paisagens pitorescas
Pobre Van Gogh pobre
Verdadeiros Vândalos
Das depreciações.

Agora sim, prossiga

desvelo

Desculpe-me enquanto durmo

Desordenado sentimento
in tentamento
em pensação
eu tento inteiro
corpo em vultos
frutos secos de esfoliação
Enredo humano.

Dez ordenados sem ti, minto
item tormento
inpensa são
eu tem tu inter
corpúsculos
sucos semens dez folias são
Em rede uma nu.

Dos condenados zem temido
tem Tór vento
imprensa vã
eu héin? o "até que
cor, músculos..."
sul com sete e três "ão"
e re dado, amo.


... aos poucos a vigília dos cachorros esfoliados,
em uníssono ressoa pela madrugada insone.

pesar

Braços cruzados
Sono faltando
Sem braços dados
Ou mãos afagando o porvir

Encruzilhada,
Os olhos fechando
Sem braços ao lado,
Pranto.

Desato os meus ombros do mundo
Descanso

pele res

O meu raro suspiro
Ampara-me do frio
Que a ausência do meu sol...

O que é só meu?
Sobriedade.

A cada fenda conhecida
Descubro-me incapaz
Por deixar escapar luz e ar...
Poluídos.

A cada visita
Me comprazo ser maior...
Que uma pedra
Uma faca
Um fuzil.
(Compreendo a inimizade à mão).

Frieza no rosto:
Vê, mas não liga
Eterno "hoje não!"
Se vê inimigo da mão
que suplica o amor.

Gélida esmola:
Alimento à moela
Quem antes nega dá
Ao chão seu valor.

Possui olhar cobrador.
A fonte dos olhos secou.
Eu ausente incomodamente.
Sobra e idade.

O passatempo se acabou-se
No bloco D, área 12
Se foi a visita que sobrou
Resta o ato bemol, descascada
Pele ressecada.

h

... consoante soando o silêncio quando só,
nome dissilábico,
posto só...

revisão do conceito

Quantos vendidos ao meio
Ultrapassamo frio?
- Preguiça!

Fatigado céu
De poesia decaída
Cerra os olhos pra fugir.
- Inveja!!

Nada de luz de lua,
Luz de rua escura e gélida.
Quer mais...
- Luxúria!!!

Tua soberba excreção
De ideais avarentos,
Ira, Raiva, Guerra.

Por muitos anos muitos somem e,
Quando comem, fome compulsiva
Para os porcos poucos
Gulodice dos rotos.

Utopia estética alienante
Não se juntam à cidade
O Humanamente importante
Humildade e caridade

Não me sobra Paciência
Pra reconhecer que deixamos por herança
Arcabouços de experiências,
Apetite sem esperança.

(Novembro de 2005)

manopla

Pa
TA
Ta
Pa
Enterro.