- Traga um copo com água pra mim!- Sim, senhor.Após ter entregue o que lhe foi pedido, João sentou-se junto ao balcão e aguardou o próximo “pedido” do seu patrão.Assim se dava a conquista dos seus duzentos reais, sem creditarem no seu salário a paciência e seus problemas pessoais, inevitavelmente perceptíveis em seus úmidos olhos, nem acreditarem no seu verdadeiro objetivo de vida: ajudar, sem olhar a quem, pelo simples prazer, porém riquíssimo valor, de tal humanismo. A quantia lhe era entregue no final da tarde do último dia de cada mês para que ele começasse bem o próximo período de prestação de serviços.Mas João pensava. Via os rostos tristes e gastos das pessoas que passavam (pois caminhar é luxo, hodiernamente) por ele nas ruas e que participavam da mesma maratona que ele, em busca do mesmo prêmio mensal. Sentia aquela situação transformar-se em dor de barriga. Via-se trabalhando em algo que não acrescentaria em sua vida absolutamente nada, a não ser um pouco de comida, e percebiam-se novamente as nuvens carregadas de seus olhos descarregarem-se, mas logo se escondia da tormenta, pois seu patrão (pediu outro copo) podia não apreciar o gosto de lágrimas em sua água, gosto de dor e tormento espirituais que se liquefaziam nos acusadores das noites mal dormidas de João.Sim. João filosofava. Analisava sua situação atual em contraposição aos seus sonhos inacabados. Mal via a hora de resolver suas dívidas e de liquidar aquela terrível dor na barriga. Ia ao banheiro do trabalho e, absorto, ficava um certo tempo sem conseguir produzir sequer uma obra, sem obrar. Porém, viu que esta era a oportunidade de pensar sem ser pressionado: sentava-se, após arriar as calças, e punha-se a pensar: fome, miséria, riqueza, egoísmo, causas e conseqüências. Pensava tranqüilamente, pois, se o vissem naquele contexto, não indagariam a causa de sua estadia ali, deduziriam.Chorava... Sofria... pois pensava!Sim! João pensava. Por isso chorava. A vida de João era pensada, e Ele o ajudava. João acreditava Nele. Talvez o problema esteja em mim... por Eu não crer nele.João pensava, Eu não. Não sei se realmente não penso, ou se ignoro tudo e todos, até a mim mesmo apenas por não querer preocupar-me. Sei lá. Mas agora tenho que retornar ao trabalho. Não se preocupem comigo. Já lavei o meu rosto.
(texto publicado no 14° DC)

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