quarta-feira, 13 de junho de 2007

n(ã)o g-ê-n-e-r-(o)---a-l-i-s-e-me

- Olá.
- Oi. (Isso. Sente-se. Tome um café. Verás como te recebo como quem se atenta à Quarta banda alternativa da noite que toca a Quarta música de dois minutos do compositor que tinha o quarto por companhia, a arte por razão, o agir por satisfação e a vida por religião. Mesmo quando esta lhe causa dúvidas desconcertantes ou dorme de cabelos soltos, mãos próximas ao rosto, pés se aquecendo, e olhos se escondendo do mundo em movimento. Voraz como o sermão do teu pai à janta, de tua mãe à faxina, de teu irmão ao futebol televisivo, é a forma como insulto a ti em minha mente só por ter aqui estado, da comida se fartado, do vinho provado, no banheiro se aliviado, do telefone usufruído e a minha mão estendida rejeitado quando o que mais se ausentava de mim naquela noite era o completo apoio moral, subjetivo em classificação morfológica, mas concreto como a ti mesmo, tudo isso naquela mesma noite. Também fiz tudo isso: estive em seu corpo, me fartei de seu barulho, provei daquele lugar imundo, aliviei-me com vários suspiros e usufruí de sua imagem me embebedando, os olhos quentes em suas promessas. E você vem, bebe da minha boca, come da minha cama, se farta da minha carne e me deixa de mão ao ar. Não me conhece, não é? Pra mim, você é “eu”. Pra você, eu sou “tu”. OK. Tá bom. Use-me. Se gabe aos amigos. Fodam-se as idéias, os ideais, os que mais pareciam valer a pena. Só meu corpo está contigo. Só, meu corpo parece estar aqui. Mas algo me espera além daqueles selos de adolescentes: drogas, tragos, bagos, bundas, imundas vidas boêmias, algo maior que o seu indicador macho-irônico sexual, algo muito maior. Algo que verdadeiramente existe e que, honestamente, é a única coisa que merece espaço em minha mente, meu amor. Não me guarde em lugar nenhum dentro de você, aliás, guarde-se do mundo. Faça-me esse favor. Ou aprenda algo próximo do que, geralmente, as pessoas simplificam: “sentimento humano”. Cretinice. Olha, ainda ri! Que desgr...)
- Até mais.
- Ah! Tchau.
- E hoje à noite, o de sempre?
- É só ligar...

(texto adaptado do publicado no 15° DC)

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